Imagine uma reunião de diretoria sobre inteligência artificial.

Uma pessoa apresenta uma ferramenta. Outra sugere um treinamento. Alguém pergunta quanto custaria automatizar parte do atendimento. A conversa avança para fornecedores, licenças e prazos.

Até que surge uma pergunta:

O que queremos que passe a ser possível no nosso negócio?

Responder exige olhar para além das tarefas que já existem. Pode envolver uma experiência que a empresa ainda não consegue oferecer, uma decisão que chega tarde demais ou uma oportunidade que sempre pareceu exigir uma estrutura inviável.

Antes de investir em inteligência artificial, a liderança precisa definir qual mudança merece ser explorada, por que ela importa e quais evidências ajudariam a decidir se vale continuar.

A escolha da ferramenta ganha sentido dentro dessa direção.

Que possibilidade ainda não estamos considerando?

Quando pensamos em IA a partir da rotina atual, é natural procurar atividades para acelerar: produzir uma apresentação, resumir uma reunião, preparar uma proposta.

São usos possíveis. Mas quem dirige um negócio também precisa abrir espaço para perguntas sobre o próprio funcionamento da empresa.

Por que uma proposta precisa percorrer tantas etapas? Que informações chegam à liderança apenas quando a oportunidade já passou? Que tipo de acompanhamento gostaríamos de oferecer aos clientes, mas hoje parece difícil sustentar?

Essas perguntas ampliam o campo da conversa. A investigação deixa de se limitar ao tempo gasto em uma atividade e passa a incluir o valor que ela deveria produzir.

Para uma empresária, uma diretora ou uma conselheira, isso pode significar rever uma premissa que orientou decisões durante anos: algo que antes exigia determinada estrutura talvez possa ser organizado de outra maneira.

Essa possibilidade precisa ser examinada. Ainda não é uma promessa de resultado.

Questionar: entender o que realmente precisa mudar

Considere uma situação ilustrativa: uma empresa quer usar IA para preparar propostas comerciais mais rapidamente.

Antes de procurar uma solução, a liderança pede que a equipe examine algumas propostas recentes. Onde houve demora? Em quais etapas surgiram dúvidas? O que precisou ser refeito?

A investigação pode revelar que a redação ocupa apenas uma parte do tempo. A equipe talvez receba informações incompletas, tenha dificuldade para definir o escopo ou dependa de aprovações pouco claras.

Nesse cenário, acelerar a escrita resolveria uma parcela do problema. O restante continuaria produzindo espera e retrabalho.

Questionar é tornar visível o que estamos tentando resolver — inclusive quando o pedido inicial precisa mudar.

Uma pergunta útil para essa conversa é:

Se essa tarefa ficasse pronta em poucos minutos, o que ainda impediria o resultado que queremos?

Redesenhar: imaginar outra maneira de trabalhar

Com o problema mais claro, a equipe pode explorar outras possibilidades.

No exemplo das propostas, seria possível organizar melhor as informações antes da elaboração? Identificar lacunas enquanto a conversa com o cliente ainda está acontecendo? Preparar alternativas para que a equipe comercial avalie caminhos diferentes?

A IA poderia participar de algumas dessas etapas, dependendo dos dados disponíveis, da adequação da tecnologia e da revisão necessária.

A liderança não precisa chegar à reunião sabendo configurar esse processo. Precisa conseguir formular uma direção suficientemente clara para orientar a investigação.

Em vez de pedir apenas uma lista de ferramentas, pode pedir:

Mostrem como poderíamos melhorar a passagem entre entender o cliente e apresentar uma proposta. Onde a IA poderia contribuir? O que precisaria continuar sob avaliação da equipe?

Esse pedido abre espaço para o conhecimento de quem executa o trabalho e permite comparar possibilidades antes de escolher uma solução.

Reconstruir: transformar a possibilidade em uma experiência concreta

Uma ideia precisa encontrar as condições reais da empresa.

No exemplo, a equipe poderia testar uma nova forma de preparar propostas em um conjunto limitado de situações, com informações autorizadas e revisão antes de qualquer envio.

Antes do teste, seria necessário combinar o que observar: clareza do escopo, qualidade da proposta, tempo total de preparação e quantidade de correções, por exemplo.

Também é importante definir quem acompanha a experiência e quem decide o próximo passo. Um teste pode levar à ampliação, a ajustes ou à conclusão de que aquela abordagem não merece continuidade.

Reconstruir envolve essa passagem entre imaginar e experimentar. A experiência devolve informações para a liderança decidir com mais fundamento.

O que pedir à equipe antes de aprovar um investimento em IA

Uma proposta de uso de inteligência artificial fica mais fácil de avaliar quando responde a cinco perguntas:

  1. Qual mudança queremos produzir?
    Descrever o que melhoraria para o negócio, para o cliente ou para as pessoas que trabalham ali.
  2. O que sabemos sobre a situação atual?
    Apresentar exemplos, dificuldades e informações disponíveis, distinguindo observações de suposições.
  3. Que alternativas vamos explorar?
    Considerar mudanças no processo e possíveis contribuições da IA.
  4. Como vamos avaliar a experiência?
    Definir critérios de qualidade, limites de uso e situações que exigem revisão humana.
  5. Que decisão tomaremos ao final?
    Combinar quais evidências justificariam continuar, ajustar ou interromper.

Essas perguntas ajudam a transformar interesse em IA em uma investigação com propósito.

A visão de quem lidera também precisa de espaço para mudar

Empreender envolve reconhecer possibilidades antes de ter todas as respostas. Liderar também exige avaliar quais delas merecem atenção, recursos e responsabilidade.

É nessa conversa que situo o AI Thinking: Questionar, Redesenhar e Reconstruir como movimentos para repensar o trabalho e explorar o que pode mudar com inteligência artificial.

Uma palestra ou um treinamento pode abrir esse espaço: apresentar uma possibilidade concreta, examinar suas implicações e ajudar a formular perguntas que a liderança levará para a equipe.

O ponto de partida pode ser uma pergunta para a próxima reunião:

O que gostaríamos de tornar possível no negócio, mas ainda estamos avaliando com as limitações de antes?


Dani Hayoshi é autora de AI Thinking. Seu trabalho conecta inteligência artificial, educação e empreendedorismo. Conheça sua trajetória.